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Kart, uma História

Resolvi criar uma coluna exclusiva para Kart aqui no site. Para quem não conhece direito, o kart é uma das geringonças motorizadas mais divertidas que existem. Parece um brinquedo, é pequeno, tem rodinhas engraçadas, mas anda igual o capeta! A sensação de acelerar um kart com motor 2T é uma coisa indescritível, que só quem já pilotou (2 ou 3 voltinhas não contam, tem q treinar pra saber o que é acelerar um kart de verdade) tem a noção do quanto é emocionante fazer as curvas escorregando e tentando não parar de acelerar para manter o giro em alta.

Ivan "ajudando" a montar o kart.

Minha história de vida tem no kart um valor muito grande. Desde pequeno tenho envolvimento de alguma maneira com esses pequenos carros de corrida. Mas não pense que eu ganhei um kart e comecei a pilotar, e assim comecei a me envolver com isso. Nem de longe foi assim.

Tudo começou com a paixão pelas corridas. Meu pai sempre gostou, e desde que me lembro de conseguir entender alguma coisa desse mundo, paro em frente à TV pra ver todo tipo de corrida. Desde Motovelociade à Stock Car, passando por F1, Indy, Nascar e tantas outras. Basta estar passando uma corrida que fico estendido na frente daquele cubo luminoso vendo as imagens e xingando quem faz alguma cagada na pista ou fala asneira na narração.

Mas o kart mesmo apareceu um pouco depois, quando meu pai e um amigo foram ao Rio com uma caminhonete velha e trouxeram uma tralha que compraram por lá. Eram equipamentos de kart. Chassis, motores, pneus gastos, carenagens… Tudo veio amontoado na caçamba, meio desmontado e sujo. Não era equipamento de ponta, longe disso, era algum resto de alguma equipe que competia por lá, já desgastado com o uso. Enfim, tudo que já não mais servia pra quem queria ganhar um campeonato. Numa época em que o Rio ainda tinha Autódromo (e kartódromo!). E tinha competições de alto nível. Essas peças foram desmontadas, revisadas, pintadas e remontadas, num trabalho solitário do meu pai, com meu irmão e eu, dois moleques na faixa dos 5 a 7 anos, bisbilhotando curiosos aquela novidade, achando que estávamos ajudando em alguma coisa.

A trupe

Karts prontos, foi todo mundo para o aeroporto da cidade, que quase não tinha pousos e decolagens (kartódromo era um sonho, naquela pequena cidade do interior de Minas), para finalmente começar a andar. Eram uns 2 ou 3 karts, meu pai, um tio, e o amigo citado lá no começo do texto. E a gente, os moleques, observando encantados aquilo tudo.

Andavam o domingo todo, e na hora de “limpar o motor” com querosene, para remover o M50, eles nos carregavam no colo para conduzirmos os karts nas voltas lentas de limpeza.

Foram vários domingos assim, divertidíssimos, e depois de um tempo os adultos arrumaram dois chassis para montar para a gente poder andar também. Mas não chegamos a colocá-los na pista. Burocratas trataram de acabar com a brincadeira, dando um jeito de dificultar o uso do aeroporto. E o equipamento todo foi vendido.

Alguns anos se passaram, chegamos à adolescência, e surgiu a idéia de fazer um curso de pilotagem em Ipatinga, no vale do aço mineiro, a cerca de 300km de onde morávamos.

Pista do aeroporto

Então começamos a preencher os fins de semana com o kartismo outra vez. A escola não tinha recursos, os karts eram velhos e não funcionavam direito, e era mantida por gente apaixonada, que nunca ganhou dinheiro com isso, muito pelo contrário, era gente que às vezes colocava dinheiro do bolso, e não poupava dedicação, só para ver a garotada aprendendo. Nós fizemos o curso com muita vontade, e na corrida de formatura, fui pole e meu irmão segundo na classificação, e na hora de alinhar para a largada, surgiu não sei de onde um palpiteiro sugerindo inverter o grid. E foi ouvido! Me mendaram para a última posição, com um motor já sem compressão nenhuma por muito uso e pouca manutenção. Era certo que não aguentaria a corrida. Largamos mesmo assim.

A corrida foi muito agitada e acabou na mesma ordem da classificação, depois de uma bonita disputa na pista. Eu ganhei a primeira corrida que participei e meu irmão cruzou a linha de chegada em segundo. E o motor aguentou até o fim!

Formados pilotos de kart, conseguimos um equipamento que estava encostado numa oficina desde a época do aeroporto, de um outro amigo que tinha entrado na brincadeira na época. Revisamos tudo, tiramos a ferrugem, e fizemos a pintura das carenagens com a marca da empresa dele estampada, como agradecimento.

Nos mudamos para Ipatinga naquele ano, e finalmente tinhamos um kartódromo para andar quando quiséssemos. Íamos cedo aos sábados, saíamos já de noite de lá, e no domingo repetíamos a jornada. Andávamos muito pouco, é verdade, pois a grana era curta e o “paitrocínio” mal pagava o combustível. E o equipamento antigo já não aguentava mais o tranco. Então era muito mais tempo com a mão na graxa do que no volante. Mas foi uma época deliciosa, fizemos alguns campeonatos, quebramos em muitas corridas, e aprendemos demais, tanto de mecânica, quanto de dinâmica de corridas, mas principalmente da vida e de superação.

Superação pois nessa época perdemos um tio, num acidente de kart, nessa pista. Um cara muito bacana, que foi embora muito cedo depois de ter superado um câncer que quase o levou antes. Mas nem por isso desistimos, inclusive participei de uma corrida pouco tempo depois, carregando um adesivo preto com um in memorian, colado no capacete. Com essa corrida, na qual tive um desempenho muito bom, quase consegui participar de um programa de monopostos na França, mas não deu certo por falta de recursos financeiros que garantissem a empreitada. Numa época em que o kart estava no seu auge no Brasil, tinha pilotos como Felipe Massa, Nelsinho Piquet, André Nicastro, Danilo Dirani, Alberto Valério e outros despontando como grandes promessas. Mas começou a atingir custos exorbitantes, para começar o seu declínio, junto com o automobilismo no país.

Corrida que quase me levou à França

Então a vida seguiu, passei no vestibular e tive que deixar as corridas de lado para fazer minha faculdade, sempre com a ideia de juntar uma grana pra voltar depois que terminasse. Me formei, virei adulto, e junto arrumei outras obrigações que impediram esse retorno. Por enquanto!

Agora, bons anos depois, comecei aos poucos a acompanhar novamente o que vem acontecendo no meio, e tenho percebido uma mentalidade bem interessante, voltada pra durabilidade do equipamento e redução de custos, inclusive para Campeonato Brasileiro (que já foi exclusividade de milionários). Isso me animou, e o coração voltou a acelerar com o grito de um Parilla, o cantado do pneu escorregando no asfalto e o cheiro de óleo dois tempos queimado, trazendo junto a idéia de um novo capítulo para essa história.

Igor Otoni

 

 

 

Estaremos aqui, juntos, eu e o meu irmão, o Ivan Cunha, destrinchando o fantástico universo desse esporte, na esperança de contagiar mais gente, e poder encontrar algum leitor na pista.