Enviado por Igor Otoni em abr 19, 2011 em Kart | 2 Comentários
Como disse antes, a sensação de velocidade proporcionada por um kart em um kartódromo de verdade é uma coisa sensacional. A proximidade do chão, a ausência de suspensões, as respostas rápidas e a possibilidade de fazer as curvas escorregando multiplicam essa sensação de uma maneira única. Muitos pilotos experientes afirmam categoricamente que entre o kart e a Fórmula 1, as outras categorias sempre parecem ser mais lentas. Não é à toa que eles sempre estão dando um jeito de dar suas voltas num kart.
Pra chegar nessa velocidade, o principal item do equipamento é o motor, pois sem ele, nada disso seria possível, a não ser que você se dispusesse a descer uma ladeira muito inclinada, mas mesmo assim nem chegaria perto.
Dos motores que são utilizados em categorias oficiais, temos uma divisão básica em 2 categorias, de acordo com o funcionamento dos mesmos. Os motores de dois tempos (2T) e os de quatro tempos (4T).
Numa abordagem bem simples, vou tentar explicar um pouco o que significa isso.
Um motor a combustão, a cada ciclo de funcionamento, cumpre quatro etapas básicas: Admissão, compressão, explosão e escape. Cada “tempo” do motor é uma ida ou uma volta do pistão dentro do cilindro. Logo, cada volta do eixo é completada em dois tempos do motor.
O motor 2T gasta dois tempos para cumprir um ciclo, ou seja, a cada ida e volta do pistão, ele cumpre o ciclo completo, juntando duas etapas em cada tempo. Já o motor 4T faz cada etapa em um tempo, ou seja, numa descida do pistão ele faz a admissão, na subida compressão, na outra descida explosão e na outra subida escape, gastando quatro tempos para completar um ciclo.
“Tá, beleza, mas pra que esse cara tá falando esse monte de coisa, se o que eu quero é acelerar?” Você deve estar se perguntando agora…
Pode parecer complicado, mas depois que você começa a pegar o espírito da coisa, facilita para entender que tipo de motor você vai usar, como vai usar, quanto vai gastar, quanto vai cansar, por que o outro piloto tá virando melhor que você… etc, etc, etc.
Então cara pálida, se quer mesmo começar a competir, vai precisar sim entender tudo sobre seu equipamento, pois só assim conseguirá melhorar sua performance e ganhar corridas.
Agora que você sabe o motivo de tentar entender tudo isso,vai começar a entender o que essas diferenças vão representar na pista e no seu bolso.
O motor 2T, normalmente é um motor que funciona melhor em rotações mais altas, tendendo a perder força se o giro cair. Por girar mais rápido, tende a desgastar mais e ser mais sensível a pequenas alterações. Mas em compensação, é um motor de mais fácil manutenção, por ter um número muito menor de componentes internos.
Já o 4T, tem torque bom em uma faixa mais ampla de giros, tem desgaste menor, mas uma manutenção mais complexa.
“Ahhh… agora sim você começou a explicar direito!” – É… pode ser, mas só é possível perceber isso entendendo a parte lá de cima.
Mas agora é que vem a parte prática da coisa. O uso na pista, e o que isso vai te fazer gastar e por que.
Se você já assistiu alguma corrida oficial de kart, principalmente campeonatos nacionais, e depois foi assistir uma corrida regional, já deve ter reparado alguma diferença. Não digo quanto ao número de competidores nem beleza das corridas, mas sim no comportamento dos karts na pista. Alguns passam gritando e fazendo as curvas de maneira mais agressiva, enquanto outros tem um barulho mais soprado, menos agudo, e o piloto contorna as curvas com mais suavidade. Se reparou isso, você começou a observar as diferenças entre os dois tipos de motores.
O primeiro exemplo que citei é com 2T, 125 cilindradas, que exige uma agressividade maior, por precisar funcionar em alta, mas pode escorregar mais um pouco por ter melhor retomada de velocidade (desde que o giro não caia muito). Já o 4T (400cilindradas) exige uma pilotagem mais delicada nas curvas, escorregando menos, pra perder menos velocidade, pois sua retomada é mais fraca. Mas por ter mais torque, não exige que o piloto se preocupe em não perder giro.
Normalmente, o 4T tem um comportamento mais dócil, sendo mais indicado para quem quer começar. Por ser menos sensível a alterações de clima e temperatura, não precisa de regulagens constantes no carburador (no 2T o piloto precisa saber fazer essa regulagem, pois vai alterá-la constantemente com o kart em movimento) podendo ter um padrão fixo. Com esse tipo de motor, o cara pode chegar, ligar o kart e ficar rodando o dia todo sem se preocupar com desgaste ou maiores ajustes. Mas pode precisar gastar um pouco mais quando for necessário abrir o motor. Não se assuste, abrir motor em equipamento de competição é muito comum, e deve ser feito de tempos em tempos, de acordo com o tipo utilizado.
Já o 2T exige mais conhecimento e experiência do piloto. Ele vai precisar saber regular o carburador, vai precisar de uma sensibilidade mais apurada, para saber conduzir sem perder rendimento, e vai correr mais risco de quebras pela delicadeza e quantidade de rotações desse tipo de motor. Mas é bem mais simples de refazer o motor, é muito mais gostoso e emocionante pilotar, e anda bem mais que o 4T.
Atualmente, com o aumento da preocupação com os custos, muita coisa tem mudado. Os motores 2T estão aos poucos passando a ser refrigerados a água, o que tem aumentado muito a durabilidade. Os 4T continuam a ar, mas com refrigeração forçada (ventilador), e não devem passar pra refrigeração líquida, pois são baseados em motores agrícolas, que não esquentam tanto e acabam não tendo essa necessidade.
Até bem pouco tempo atrás, a diferença de custos entre correr de 2t ou 4t era gigantesca, com o primeiro sendo muito mais caro, mas com essas mudanças citadas, isso vem se alterando aos poucos. Ainda existe uma diferença, mas não é mais proibitiva como já foi. Comprar um equipamento com motor dois tempos para correr um campeonato brasileiro hoje é possível para um “simples mortal”. Mas se a intenção for apenas se divertir nos finais de semana, poder dar suas voltinhas sem muita preocupação e participar de regionais, um quatro tempos é uma ótima opção.
O ideal para entender realmente tudo isso é começar a frequentar o kartódromo, ver os karts andando e conversar com as pessoas. Sempre ter na cabeça que é equipamento de competição e performance, e não brinquedo. Se não encarar dessa forma, nunca atingirá a performance desejada, e vai acabar se frustrando.
E não se iluda, se não tiver preparo físico, não vai aguentar o 4T e muito menos o 2T. Kart exige muito fisicamente e cansa bastante. Então antes de ir pra pista, corra pra uma academia e entre em forma, senão vai passar aperto!

Motor 2T, 125cc, refrigerado a água

Motor 4T, 400cc, refrigerado a ar